Santa Marofa

Devaneios, certezas e principalmente incertezas. Criado por Laura Fazoli

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Você quer Marambaia?

Neste feriado de Dia dos Namorados tive uma experiência interessante. Uma experiência extremamente sensual. Com duas mulheres. Duas entidades santificadas daquelas que se deve fazer reverência.

Não era de hoje minha vontade de assistir o show de Maria Bethânia e Omara Portuondo. Eis que ao chegar na locadora há umas duas semanas imediatamente levei-as para casa, e, junto com minha avó, quase nonagenária como Omara, encantamo-nos com essas moças.

Algo indescritível acontece além de uma banda impecável e duas cantoras de renome. Há uma energia em torno de Maria Bethânia que emana uma enorme luz deixando a nós meros e mortais espectadores como se em transe. Em um nível elevado. Bethânia não é só uma cantora. Bethânia é inteira, é intensa é simples e canta como se estivesse passando uma receita de bolo para a prima.

Me lembro que quando pequena eu não gostava dela. Meu pai tinha um disco (LP!!) com a foto dela no famoso show do Teatro Opinião em meados de 1960, quando a irmã de Caetano foi convidada para substituir Nara Leão. Ela havia sido vista cantando em Salvador, para onde se mudou com o irmão e, o mesmo a acompanhou (como condição imposta pelos pais) ao Rio de Janeiro para uma pequena temporada no teatro de bolso do Centro Popular de Cultura da UNE comandado pelo Vianinha. Ou seja, embora muitos pensem ao contrário, na verdade, Caetano é que é o ‘irmão de Bethânia’ . Ela veio antes dele mesmo sendo caçula.

Mas voltando à foto, ela aparecia à frente de Zé Ketti com a expressão muito firme, os cabelos bem divididos e presos em coque. No interior do disco, ela cantava muito brava uma musica que diz: ‘Carcará, pega, mata e come’. Na minha cabeça de criança ela era praticamente o ‘homem do saco’, ou o ‘bicho-papão’ com essa coisa de ‘pega, mata e come’.

Então no final dos ans 80 ela fez um show que eu não fui, mas, minha mãe foi e me deu o CD, onde declamava Fernando Pessoa e cantava a musica do Dom Quixote:

‘ Sonhar, mas um sonho impossível / Lutar, quando é fácil ceder / Vencer, o inimigo invencível / Negar, quando a regra é ceder / Sofrer, a tortura implacável / Romper, a incabivel prisão / Voar, num limite improvavel / Tocar, o inacessível chão./ É minha lei, é minha questão / Virar esse mundo, pisar esse chão / Não me importa saber se é terrível demais / Quantas guerras terei que vencer por um pouco de paz / Se amanhã esse chão que beijei for meu leito e perdão / Vou saber se valeu delirar e morrer de paixão / E ASSIM, SEJA LÁ COMO FOR / VAI TER FIM A INFINITA AFLIÇÃO / E O MUNDO VAI VER UMA FLOR / BROTAR / DO IMPOSSÍVEL / CHÃO’.

Bethânia passou de carcará ao romântico herói de Cervantes, sem perder a força do primeiro, somando a sensibilidade do segundo.

O tempo passou e minha trajetória de vida e arte me mostravam cada vez mais a grandiosidade dessa filha de Dona Canô. Encontrei nessa breve estrada uma pessoa que dividiu durante certo tempo essa paixão comigo. Uma grande amiga: Mônica Dranger. Juntas fomos ao delírio no Credicard Hall quando compramos os últimos igressos na última fileira do último andar para assisti-la com sua conterrânea contemporânea Gal Costa. Desculpe Gal. Mas a ‘Força Estranha’ de Bethânia bate mais forte. “Eu vi um menino correndo, eu vi o tempo (…) por isso uma força, me leva a cantar. Por isso uma força estranha, no ar. Por isso eu canto, não posso parar. Por isso essa voz tamanha”.

Não era a primeira vez que ela interpretava musicas do Rei Roberto. Afinal, algumas das canções dele só servem nos pulmões dela. Há inclusive aquelas músicas que já nao são mais do Rei, são daquela que ele mesmo chama de ‘minha rainha’. Fera Ferida, As Canções que Você Fez Pra Mim, Costumes.

Essa é Maria Bethânia. E realmente ela e sua turma (Caetano, Gil, etc) é Brasil como Omara e sua turma (Buena Vista Social Club) são Cuba.

Omara, Bethânia, Compay, Tom, Ibrahim, João. Célia Cruz é Sério Mendes. Há pouco tempo assisti o documentário ‘A bandeira que canta’ sobre vida e obra de Célia Cruz que não pode voltar à Cuba comunista depois da revolução tendo feito carreira nos Estados Unidos e difundido assim a música cubana pelo mundo. Para muitos, Célia é Cuba. Enganan-se, Célia é internacional. Tem costumes e linguagem norte-americanos. Omara não. Omara é Cuba. Omara ficou.

A enorme semelhança de temas nas canções interpretadas emocionam a ambas e à platéia que não exita em ovacionar. Não se sabe se estamos na realidade caribenha ou sulista. A latinidade prevalece.

Dona Omara termina o grande espetáculo perguntando para sua partner se quer ‘Marambaia’. Nitidamente essa cubana que foi calada por anos e depois serviu de propaganda para o mesmo governo, se divertiu com a modinha. E foi desse jeito:

‘Eu tenho uma casinha lá na Marambaia, fica na beira da praia só vendo que beleza. Tenho uma trepadeira que na primavera, fica toda florescida de brincos de princesa. Quando chega o verão, eu sento na varanda, pego meu violão e começo a cantar. E o meu moreno que está sempre bem disposto senta ao meu lado e começa a cantar.

Quando chega a tarde, um bando de andorinhas voa em revoada fazendo o verão. E lá na mata o sabiá gorgeia linda melodia pra alegrar meu coração. As seis horas o sino da capela toca as badaladas da Ave Maria. A lua nasce por detrás da serra anunciando que o dia acabou’.

Se eu soubesse que o ‘carcará’ - ‘homem do saco’ era Bethânia, eu, ao contrário das outras crianças, ia aprontar muito mais e nem dormiria para que ela viesse me buscar.

criado por lalafazoli    03:33:09 — Arquivado em: Sem categoria

quinta-feira, 28 de maio de 2009

EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DOS SEUS LINDOS LÁBIOS.

 

Falei que estava planejando ir embora. Lavinia gritou do chuveiro:

- O que você disse?

Entrei no banheiro e puxei a cortina de plástico. Ela ensaboava o corpo.

- Tô pensando em ir embora daqui.

- Pra onde?

- Não sei ainda, talvez eu volte para São Paulo.

Lavínia passou o sabonete entre as pernas, levantou um monte de espuma. E sonho.

- O que foi, bateu saudade de casa?

- Não posso ficar aqui pra sempre. Tenho que dar um jeito na minha vida.

Ela guiou o chuveirinho para o púbis. Desfez a espuma, não o sonho.”

 

Esse é um trecho do livro do Marçal Aquino ‘Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios’. No mesmo livro:

” O AMOR É SEXUALMENTE TRANSMISSIVEL”

” O SEGREDO NÃO É DESCOBRIR O QUE AS PESSOAS ESCONDEM, E SIM O QUE ELAS MOSTRAM”

“MUJERES COMO YO NO LAS CONOCES; LAS CONTRAES”

 

E eu estou só no primeiro capítulo … foda né?

criado por lalafazoli    23:22:08 — Arquivado em: Sem categoria

terça-feira, 26 de maio de 2009

Sentindo.

UM

VISÃO

DOIS

AUDIÇÃO

TRES

OLFATO

QUATRO

TATO

CINCO

PALADAR

SEXTO (O QUE EU MAIS GOSTO)

 

INTUIÇÃO!

criado por lalafazoli    15:44:51 — Arquivado em: Sem categoria

domingo, 24 de maio de 2009

Denovo…

“coração

PARA CIMA

escrito embaixo

FRÁGIL” (Paulo Leminsky)

 

Olhando, cheirando, tateando, esperando, acalmando, apaixonando?

E há quem diga que é a melhor fase…

criado por lalafazoli    15:52:42 — Arquivado em: Sem categoria

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A boca do céu.

“Gente, é mesmo, né? São Paulo não tem horizonte!”

“Não, não tem. É  só prédio mesmo”.

“Por isso que tem uma praça que chama Praça do Pôr-do-Sol? Porque lá dá pra ver o horizonte com sol se pondo?”

“Mais ou menos”

 

Esse foi o diálogo que tive ontem com minha amiga querida Amanda Bonan, carioca em visita à Terra da Garôa, e que conheci na Ilha de Fidel. Onde os horizontes também são limitados.

criado por lalafazoli    00:29:01 — Arquivado em: Sem categoria

domingo, 17 de maio de 2009

Eu só saio dessa cama…

“Chore seu sorriso louco, vista sua delicadeza.

Sinta seu corpo em chamas.

Em chamas.

(…)

E vamos delirar!

Diga delicadamente.

Diga pra mim o qu pega.

Não se apegue ao passado.

E vamos delirar!

(…)

Sonhe com alma clara. Faça de conta que vai tudo bem.

Eu só saio dessa cama, quando você me disser, decidida, que me ama! 

Eu só saio dessa cama, quando vocême disser, decidida, que me quer!

E me ter …

E eu quero, é, eu quero só você!

Eu decidi ficar!”

 

Essa poesia louca e do caralho é de uns caras fodas que atendem pelo nome de Cérebro Eletrônico. 

Sempre acreditei que a liberdade termina onde começa  liberdade do outro e, se todos ficarem a sua, não incomodam, não atrapalham e não enchem o saco. Naquela hora que todo mundo da balada já tá com cara de Lindsay Lohan, é melhor dar no pé. A coisa vai começar a ficar trash.

É um viadinho que se empolga na coreografia e sincronizadamente bate nas suas costas, o que acaba por fazer que você, puta da vida, mude de lugar. E olha que aquele lugar estava ótimo, não fosse o veado, que tinha como companheira de dança uma dessas moderninhas. Os dois lógico crentes que estavam na pista de Dirty Dancing e que toda a balada ia achar lindo os dois dançando muuuuito e ia aplaudir e sair dançando feliz junto. A câmera sobe com a grua e distancia da festa que continua feliz para sempre!

Hello! A vida não é filme e você não entendeu!

Acho que sensação pior que essa só quando você sente uma bunda gorda se encostando na sua. (Me desculpem, mas, quase sempre essas bundas são gordas, porque as bundinhas conseguem manter-se em volta de seu diâmetro próprio). Meta real galera! Mais um passinho para o lado.

Tudo é questão de saber se colocar. E de timing! A vida é timing!

Timing pra escolher seu canto na balada. Timing pra sacar quando um não quer e então dois ou mais não brigam. Timing pra pular fora. Timing pra pular dentro. Timing pra sacar a hora mesmo indecidida de sair da cama. Tendo ou não ouvido: ‘Eu te amo!’.

(Timing pra decidir ficar).

criado por lalafazoli    05:24:57 — Arquivado em: Sem categoria

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Puxa…

Que coisa, não?

 

Hoje achei uma música muito legal que se chama Cecilia Ann e é do Pixies.. que coisa, né? Minha irmã acho que nem sabe da existencia do Pixies… (Guegué, vc conhece o Pixies?) e o nome dela é Ana Cecília. E, vamos combinar, que Ana Cecília não é Daniela… ou Camila … ou Angie… ou Sílvia …. ou mesmo Kátia Flávia. Mas tem uma música de pirar, com o nome da minha irmã que quase não pira…. que coisa, não?

criado por lalafazoli    02:56:04 — Arquivado em: Sem categoria

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Não é o meu, é o seu!

    Que mesas de bar guardam segredos e surpresas não é novidade. Até eu que não tenho alto teor etílico costumo ter minhas particularidades com elas. De bar em bar (afinal, quem não tem mar corre pro bar), vamos construindo amizades das mais diversas. Do manobrista do vallet que torce para o mesmo time que você e portanto em dia de vitória é dia de desconto (ainda mais se seu carro for colorado também) ao staff.

  Em uma só noite o mesmo cenário pode presenciar dois encontros completamente inesperados ambos surpreendentes. Um aniversário comemorado com um bota-fora. Os dois irmãos com amigos em comum em torno de um amontoado de vinte pessoas em forma retangular.A irmã numa ponta e o aniversariante na outra, assim poderiam atender a todos.

  Eis que o ser indesejado por uma das convidadas entra no local, cinicamente a cumprimenta deixando-a boquiaberta e em uma atmosfera com gravidade mais pesada. Passa pela irmã e segue para o aniversariante. Esta, a irmã, olha imediatamente para a pessoa em choque e se explica, tentando evitar maior constrangimento, de que o convite não partiu dela, e sim dele, do aniversariante, que está tendo um caso com a fulana.

 Desculpas e mais desculpas. Tudo bem, sem culpas, mas, com o ar pesado, os incomodados que se retirem. Bar seguinte, mas, não se preocupe, não é você, sou eu.

 Tem aquele bar que é tão sua casa que você não consegue ir para casa, por mais tarde que seja, se dar uma passadinha. Ali, os amigos começam a aparecer ainda do outro lado da rua. Chama um, chama outro. Mesa pronta. Tres amigas e o namorado de uma delas. Até que em uma olhada um pouco mais apurada…. uma reconhece um rapaz.

 Questiona para outra se não é o rapaz que ela teria flertado meses antes. A indagada jura de pé junto que não. A indagante fica com a pulga atrás da orelha. Tinha certeza que era ele. Lembrava perfeitamente. Minutos depois o rapaz se levanta e a indagante novamente diz ter certeza. Ainda com duvidas, a que deveria ser principal interessada, toma a frente da discussão e desafia a curiosa a perguntar ao moço qual o nome dele. Convite recusado. Mais uns minutinhos e o amigo do fulano é abordado ao passar pela mesa delas (e do namorado da terceira, que por ser das antigas, ouve todo tipo de abobrinha feminina).

 Comprovado beltrano era ciclano. ‘Mas nossa! Ele engordou em poucos meses!’, ‘Peguei bem, hein? Ele ficou melhor, não ficou?’. As recordações de pouco mais de uma semana de affair recordaram à  curiosa que ela reconhecera um amigo dele quando este convidou a amiga para ir à um…bar! O amigo do cara seria o blind date. Não rolou. Eram amigos de infancia. Então, como quem gosta de passado é museu, um terceiro amigo naquela noite foi apresentado e , ao que constava da memória da esquecida do flerte, a amiga havia passado momentos interessantes com seu novo date.

 Quando uma mulher conhece alguem seja lá onde for, as amigas em volta tem uma lista mental de check-up, visceral e inevitavel à qual inconscientemente o coitado passa. Cabelo assim, dente assado, roupa tal, jeito de não sei que, acho que tem pau pequeno, etc. A pessoa envolvida é dominada por uma hipnose quando se deixa levar. Sabe olfato, tato, paladar e audição. Visão é exclusivamente das amigas. Que são quem vai lembrá-la depois.

 A questinadora, preocupada com o da outra, nem lembrava de seu próprio que como fosfosol veio à memória da primeira. A grande desculpa afinal é que se beija de olhos fechados e a grande culpa, quase sempre, é da mesa de bar.

criado por lalafazoli    02:52:59 — Arquivado em: Sem categoria

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

CADA UM TEM O JACKSON QUE MERECE??

Jackson Michael de Castro e Silva tem dezessete anos, nasceu em janeiro de 1991, sendo filho de pai e mãe juntos e morador do Irajá, um bairro classe média não tão pobre como outros da região, na baixada fluminense.

Negro estilo Bronx de cor bem homogênea e escura, alto, magro (mas não esquelético), bem vestido, o rapaz poderia ganhar um belo ‘parabéns’ numa baladinha high society. Poderia bem se aproveitar do lado bom da beleza estética para mudar seu padrão de vida, mas, pelo menos no próximo mês Jackson não dará sequencia a isso. Nem a nada mais.

A escola foi interrompida antes da conclusão do Ensino Fundamental, dentre suas companhias, a de uma garota não identificada, grávida, não se sabe se ela tem ou não uma relação com Jackson e se ele pode ou não ser pai do filho dela. Aliás, não se sabe nem se ela realmente está gestante.

Nossas vidas se cruzaram na Avenida Presidente Antonio Carlos com a Rua Nilo Peçanha no centro do Rio de Janeiro num inicio de tarde de domingo quando eu caminhava em direção ao Centro Cultural Banco do Brasil na Avenida 1º. de Março a um quarteirão dali. Fui abordada de forma surpreendente: eu saindo da Maison de France e ele provavelmente tendo acabado de atravessar a Avenida em frente ao Tribunal de Justiça.

“Passa a bolsa!” – disse ele segurando meu pulso e puxando a bolsa do meu ombro direito por baixo do meu braço que a travava.

A bolsa que eu ganhei da Lucia e é da 32ª. Mostra de Cinema eu não larguei um segundo sequer. “Passa a bolsa, solta! Solta!” ele falava e eu retrucava: “Que solta a bolsa o quê, moleque!” e ele insistia: “Encosta aí! Eu to armado, eu tenho uma pistola aqui!”

Não sei o que acontece comigo nessas horas. Sei que a indicação máxima e geral é: entrega tudo! Mas, acho que é instinto ou genética (porque minha mãe faz a mesma coisa) que imediatamente olhei para as mãos de Jackson e ambas estavam livres. Dei uma olhada geral na cintura e nenhum volume. Tive vontade de brincar com a palavra ‘pistola’, juro, mas me contive e disse: “Que tá armado o quê, moleque!” e ao repuxar minha bolsa, ele me rodopiou.

Como num cabo de guerra, no meio deste ‘rodopio’ vi de canto de olho um segurança inerte na porta do edifício garagem, na esquina de onde tudo ocorria e pensei gritar. Soltei um “Eiiii” e imediatamente surgiu uma carioca do estilo ‘marrenta’ me mostrando a palma de sua mão: ‘Si tu gritá ti encho di porrada!’, ‘Quebro a tua cara branquinha!’ e eu falei então: ‘Ok, deixa eu pegar meus documentos, deixa eu pegar meus documentos!’.

Foi neste momento que ela (então já era ela quem segurava a bolsa, Jackson só observava e me intimidava) relaxou um mínimo, ou, se distraiu com o barulho de sirene que eu também ouvi e então puxei minha bolsa retomando-a para mim e sai correndo atravessando a Avenida. Graças que não fui atropelada.

Corri para a viatura que caiu do céu e disse aos policiais que já estavam descendo do carro com arma em punho: ‘Corre! Ali! Aqueles dois ali tentaram me assaltar!’ e imediatamente saíram correndo atrás do casal que caminhava de costas para nós calmamente tentando disfarçar. A rua estava deserta e ao perceber que estavam sendo seguidos, tentaram fugir. Pegaram primeiro ele, dois policiais o algemaram imediatamente enquanto ela gritava primeiro ‘marrenta’: ‘Tô grávida! Num mi bati!’ e em seguida se fazendo de vítima ‘Solta o meu marido moço! Ele não fez nada! A gente não fez nada!’ e virava-se para mim, que tive que ficar cara a cara com eles para dar o flagrante policial: ‘Senhora (com a cara mais coitada do mundo), a gente só foi pedir trocado, num é? Fala pra eles senhora!’ e ele, Jackson: ‘Eu fiz alguma coisa pra senhora? Eu não fiz nada pra senhora.’, quem os visse naquela situação ia me achar uma ‘carrasca’ e não duvido que racista. Com certeza diriam que é porque são pobres e negros e eu tive um ataque de peruísse.

O pior foi a cara de pau de me dizer essas coisas me olhando na cara, querendo ‘tipo’ conversar. Gente, na boa, vai tomar no cú! Vai tomar no cú! Esse bando de filho da puta que rouba e assalta (tenho certeza que tinha droga envolvida nisso) e se faz de coitado. Aí vem essa porra de merda de Direitos Humanos em cima e pra salvar os coitadinhos. De boa! Não dá pra acreditar.

Bom, fomos todos pra delegacia. 15ª. DP na Central. Foi então que descobri que Jackson é menor e sua acompanhante provavelmente não, porem, esta não quis identificar-se, estava sem documentos e tal procedimento será feito apenas amanha via impressão digital e descobrirá tudo sobre ela. Há cerca de quinze dias, o mesmo sargento que deu o flagrante a capturou na Praça XV também no centro do Rio por pequenos furtos, mas o cagão (ou cagona) da vítima preferiu como tantos outros, passar a vida com medo e pânico e não a acusou. Ela fez exatamente como procedeu comigo. Amedrontou a vitima e esta imbecil cedeu, dizendo que não se lembrava direito do que tinha acontecido. É graças a atos como esse que a sociedade está como está.

Sei que é difícil manter a cabeça fria, mas, eu sou mais uma vez a prova viva de que é a melhor forma de agir. Não foi a primeira vez que isso me aconteceu. Estejam certos que quando esses desgraçados estão realmente armados e com a arma carregada eles não brincam em serviço. Conhece: ‘Cão que late não morde’? Quem está armado já chega encostando o cano na sua cintura e aí não tem nem papo. Fato.

Jackson além de estar com as duas mãos livres vestia uma camiseta justa, onde se perceberia qualquer volume extra, sem falar nas bermudas que eram de um tecido leve sendo impossível não identificar uma pistola ali. Se ele realmente tivesse um canivete ou coisa do gênero que pudesse caber em um bolso sem fazer volume expressivo, se realmente o possuísse ele não perderia tempo em não me abordar diretamente com a arma, pois, em uma emergência, o tempo hábil para pegar um canivete ou o que quer que o valha e abri-lo e então utilizá-lo, seria muito arriscado para uma fuga da vítima. Obviamente ele não o carregaria aberto correndo o risco de ferir a si próprio.

Fiquei um pouco angustiada quando vi a garota chegando, pois essa carregava uma ‘sacolinha de supermercado’, onde, ali sim poderia haver alguma arma mais perigosa. Ou de fogo ou simplesmente pedras que fossem atiradas ou utilizar a sacola para me ‘encher de porrada’ como ela mesma falou.

Contei com o fator ‘papai do céu’ e ‘sorte’ claro. Se a viatura não tivesse chegado, eu ia ter que correr muito mais para fugir deles.

Depois da descoberta da menor idade do autor, fomos todos em viaturas separadas à Delegacia especializada em adolescentes. Foi onde descobri o nome dele e vi sua ficha criminal de cinco páginas e um detalhe que me chamou atenção: Estado Civil – Desquitado. Aos dezessete anos. Jackson não era novato ali. Vai completar dezoito anos na prisão de menores e será transferido para a penitenciaria por pelo menos dois meses (já que sua pena mínima será de três meses devido seu triste histórico). Ele irá para audiência em uma semana.

A outra garota, a que se diz grávida, vai fazer exames e amanhã ficará atestado se está realmente grávida, qual seu nome e sua real idade. Provavelmente Jackson não é o pai e provavelmente eles sequer são amigos. Era tudo um negocio. Eles acreditavam que eu era ‘gringa’. Outra quase certeza é que ela é maior de idade e, para escapar da penitenciaria mentiu.

O triste é que se ela realmente estiver mentindo, nada será agravado, o juiz considera pela lei ‘legitima defesa’. Ela pode mentir para tentar se defender. É isso que o Estado ensina: mentir não tem problema.

Agora, o mais triste foi a hora que fui dispensada. Estavam telefonando para os pais de Jackson. Eles iam ser chamados na Delegacia para saber que o filho está preso. Mais uma vez. No entanto, acho difícil um pai e uma mãe se acostumarem com esse tipo de noticia.

criado por lalafazoli    22:51:42 — Arquivado em: Sem categoria

O QUE FOI QUE EU VIM FAZER AQUI?

Era essa a pergunta que não saia da minha cabeça hoje de manhã quando me vi entrando na no teatro da Maison de France aqui no Rio de Janeiro, num domingo. O fato de ser um domingo (graças que domingos no Rio são bem menos deprimentes que os domingos paulistanos) e ser no período matutino até que não estava me afetando. O primeiro momento do questionamento foi ao descer as escadas do teatro e ouvir vozes e sons fazendo vocalizes completos de todas as escalas musicais possíveis e imaginárias. E eu.
Bom, vamos combinar que eu canto. Sim, canto. Mas não sou cantora lírica. Já tive banda e os azulejos do banheiro nunca trincaram. Não por isso.
Há uns meses atrás pediram meu currículo para uma audição de musical. Achei esquisito, mas, mandei. Não responderam. Ok, eu nem esperava mesmo. Porém, eis que na semana passada retornaram já com minha data de teste agendada. Eu reafirmei que não era cantora, em vão.
Peguei o Mil e Um ontem no fim da tarde e desci. Cheguei, dormi e as 9h30 de hoje lá estava eu.
Eu sempre achei essa galerinha que sabe tudo de musicais e dança que nem nos musicais e canta como nos musicais um bando de ‘disneyzete’ chatos que não conhecem a própria realidade e deslumbram-se com um mundo que não lhes pertence. Sim, isso é doença. É síndrome da fadinha. É gente que não conhece Chico Buarque mas sabe ‘A Pequena Sereia’ de cor, em todos os tons.
Agora, hoje, estavam ali as exceções. Uma menina (Maira Sabóia) que eu nunca tinha ouvido falar, mas, pelo que entendi por ali, foi comparada à Marisa Monte e carregava consigo um Sogbook do compositor de Ópera do Malandro e Saltimbancos entre outros.
Meu número é (porque embora já saiba qual vai ser ainda não recebi resultado oficial) o 051, uma boa idéia. Aguarda que aguarda. Um vocalize aqui, um bruuuuuuuu ali, um psi-psi-psi ali, exibições mil de todos os lados. A própria Brodway Tupiniquim no mau sentido.
Por fim meu numero e, quem iria começar: eu!
Subi tremula e mostrei a partitura cifrada de ‘I got what I want’ (Grease) e ‘O Meu Amor’ (Ópera do Malandro). O músico, muito atencioso que estava atrás de um teclado, não as conhecia e sugeriu que eu cantasse a capela.
Ok. Cantei bem afinadinha, bem direitinho e até dei umas improvisadas. Sem afetação. Não dei pulinhos, nem risadinhas, nem sorrisinhos, nem fiz jeitinhos. Fiquei na minha. Por outro lado também não fui de salto, tampouco no estilo: mamãe que me vestiu. Si, ainda sou obrigada a aturar isso.
Depois de mim no mesmo grupo. Uma menina muito boa, uma outra metida a ‘Rosana’ (como uma deusa), uma ‘garotinha’ que há muito já passou dos 30 cantando o tema de Ariel, a Sereiazinha, com direito a micro-diálogos e caras e bocas que ela ‘adora!’. Por fim, um tal cujo sobrenome original (Azevedo) foi trocado para Hell. Devo dizer que do pouco ou quase nada que entendo de musicais, eles desafinaram.

criado por lalafazoli    22:48:44 — Arquivado em: Sem categoria
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